MOSTRA CORPOS DA TERRA: AS LUTAS INDÍGENAS NO CINEMA DE “TERRA DOS ÍNDIOS” (1979) A “MARTÍRIO” (2016)

A mostra Corpos da terra – imagens dos povos indígenas no cinema brasileiro ocorrerá na Caixa Cultural Rio de Janeiro, de 04 a 16 de abril de 2017. A programação apresenta 39 filmes sobre os Povos Originários no Brasil, diversificados entre os gêneros ficção, documentário, experimental e até animação. Grande parte da programação está centrada na questão crucial para os corpos indígenas: a garantia dos direitos originários às terras tradicionais, conforme previsto no artigo 231 da Constituição Federal de 1988. “Foram selecionados curtas, médias e longas-metragens que abordam diferentes aspectos da vida e da história indígena no país, dando atenção especial à relação entre os povos e a terra, seus diferentes modos de ocupação do espaço e às histórias de usurpação de seus territórios tradicionais.” Entre os longas, um documentário histórico sobre a luta indígena, em tempos de tutela do Estado, é Terra dos Índios (1979), de Zelito Viana. É marcado por depoimentos de Marçal de Souza (Guarani Nhandeva) e Angelo Kretã (Kaingang), lideranças executadas na década de 1980, e também do único parlamentar indígena na história do país, Mario Juruna (Xavante), antes de sua eleição em 1982.

A grande caminhada do Povo Guarani e Kaiowa pela retomada de suas terras sagradas no Mato Grosso do Sul, palco da tragédia indígena mais agravada nas últimas décadas, é destrinchada pelo impactante Martírio (2016), de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita. Carelli e seus colaboradores conseguiram registros documentais impressionantes da violência de milícias e produtores rurais contra as populações indígenas no movimento pacífico de retomadas (assista ao trailer: https://youtu.be/5zVzRAiDR78). O diretor, que já havia abordado o massacre de indígenas em Corumbiara (2009) – também na programação da mostra -, contribui na difusão da narrativa testemunhal do genocídio Guarani e Kaiowa através da ampla circulação do filme. O documentário é o mais completo sob a perspectiva histórica da usurpação das terras originárias e confinamento desse Povo em reservas indígenas, com indicativos da responsabilidade do Estado brasileiro do Império à República.

Primeiros contatos com a civilização, execuções, conflitos territoriais e demarcação de terras indígenas também são os temas dos longas Taego Ãwa (2016), de Marcela e Henrique Borela, A Nação Que Não Esperou por Deus (2015), de Lucia Murat e Rodrigo Hinrichsen, Vale dos Esquecidos (2012), de Maria Raduan, e Conversas no Maranhão (1983), de Andrea Tonacci. Os curtas Surara – a luta pela terra Tupinambá (2017), de Veronica Monachini e Thomaz Pedro, e Tupinambá, o retorno da terra (2015), de Daniela Alarcon, abordam aspectos das retomadas e autodemarcação de territórios. Nossos filmes Índios no Poder (2015) Índio Cidadão? (2014), de Rodrigo Arajeju e equipe, trazem o clamor Kaiowa Guarani por “terra, vida, justiça e demarcação” em perspectiva com a demanda do Movimento Indígena por representação direta no Congresso Nacional e a trajetória de luta de suas lideranças pela conquista e manutenção dos direitos constitucionais.

Destaco a exibição de filmes de cineastas indígenas com trajetória no circuito de festivais de cinema: Isael Maxakali com Konãgxeka: o dilúvio Maxakali (2016), animação dirigida também por Charles Bicalho; Alberto Alvares (Guarani Nhandeva) com Karai Ha’egui Kunhã Karai ‘ete – Os verdadeiros líderes espirituais (2014); Patricia Yxapy e Ariel Kuaray (Mbya Guarani) com Bicicletas de Nhanderú (2011); Takumã Kuikuro com As Hiper mulheres (2011), direção assinada também por Leonardo Sette e Carlos Fausto, e Nguné Elü, O dia em que a lua menstruou (2004), codireção de Maricá Kuikuro; Divino Tserewahú (Xavante) com Pi’õnhitsi – mulheres xavante sem nome (2009), codireção de Thiago Campos, e Wapté Mnhõnõ, Iniciação do Jovem Xavante (1999); e Komoi Panará com Prîara Jõ – Depois do ovo, a guerra (2008).

Ainda sob a lente de realizadores indígenas, a curadoria também incluiu filmes menos conhecidos do público. Essas produções se propuseram a realizar processos de interculturalidade, com protagonismo de indígena(s) na direção. O documentário Presente dos antigos (2009), de Ranisson e José dos Reis Xacriabá, foi produzido para o DOCTV Minas Gerais II como resultado de oficinas de audiovisual. Shuku Shukuwe, a vida é para sempre (2012), de pajé Agostinho Ika Muru (Huni Kuin),  Pirinop – meu primeiro contato (2007), de Mari Corrêa e Karané Ikpeng, Shomõtsi (2001), de Wewito Piyãko (Ashaninka), e Das crianças Ikpeng para o mundo (2001), de Karané Ikpeng, Natuyu Txicão e Kumaré Ikpeng, são produções do Vídeo nas Aldeias. O lançamento mais recente é Osiba Kangamuke – Vamos Lá, Criançada (2016), de Haja Kalapalo, Tawana Kalapalo, Veronica Monachini e Thomaz Pedro.

O recorte da mostra traz retrospectiva de obras antigas como Festas e rituais Bororo (1916), de Luiz Thomas Reis, e O Descobrimento do Brasil (1937), de Humberto Mauro, e contempla filmes aclamados pela crítica como Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci, e 500 Almas (2007), de Joel Pizzini. Duas sessões serão seguidas de debates com diretores e representantes indígenas participarão da mesa OLHARES E CONSTRUÇÕES: INDÍGENAS NAS TELAS (09/04, às 19h) e da roda de conversa MULHERES INDÍGENAS NA CIDADE (13/04, às 19h). Os filmes Índios no Poder (2015) Índio Cidadão? (2014) terão sessões duplas no dia 06/04, às 15h – mesma data da mesa DEMARCAÇÃO: UMA QUESTÃO DE PRIMEIRA ORDEM (às 19h) – e 14/04, às 17h30. A abertura ocorrerá hoje, às 19h, com sessão gratuita de Taego Ãwa (2016). A programação completa está disponível em https://www.corposdaterra.com/programacao.

Texto de Rodrigo Arajeju, com vinheta e informações da divulgação oficial.

Serviço:

Corpos da terra – imagens dos povos indígenas no cinema brasileiro

04 a 16 de abril | 2017

Caixa Cultural Rio de Janeiro – Cinemas 1 e 2

Av Almirante Barroso, 25 – Centro | Metrô: Estação Carioca

Contato: (21) 3980-3815

Ingressos: R$4 (inteira) e R$2 (meia entrada)

Além dos casos previstos em lei, clientes Caixa pagam meia entrada

Acesso para pessoas com deficiência

Patrocínio: Caixa Econômica Federal e Governo Federal

Facebook: facebook.com/corposdaterra

Site: http://www.corposdaterra.com

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