NHANDERU SERGIO PAULO RECEBE LIBERDADE PROVISÓRIA

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Na tarde de ontem (21/05), autoridades do Grande Conselho Aty Guasu foram à Delegacia da Polícia Civil de Caarapó exigir esclarecimento sobre o paradeiro do nhanderu Sergio Paulo. A comunidade do Tekoha Takuara mobilizou apoio de dezenas de lideranças após receber o indicativo de que ele fora libertado em 19/05, data da expedição do alvará de soltura.  A informação, prestada via telefone de atendimento da D.P., não correspondia aos fatos. Sergio Paulo permanecia sob custódia na Delegacia e somente recebeu liberdade provisória após a ação do Aty Guasu, somada as intervenções de apoiadores.

Familiares disseram que o nhanderu está muito abalado emocionalmente e temem que ele tente suicídio em decorrência do trauma vivenciado na carceragem. Ele relatou agressões dos agentes policiais, uma série de torturas psicológicas e até mesmo ameaça de morte. O nhanderu Sergio Paulo ainda responderá à Justiça pela acusação do crime de interceptação. A criminalização de lideranças das retomadas Kaiowa e Guarani é um dos temas da pauta da assembleia do Aty Guasu realizada hoje, em caráter emergencial.

Na madrugada, o cacique Elizeu Lopes telefonou para dizer que os nhanderus e nhandecys realizavam rituais tradicionais para a abertura dos trabalhos da assembleia. Também rezavam para fortalecer a vigília das lideranças Guarani na sede do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, iniciada na noite de ontem. O cacique disse que os ministros Gilmar Mendes e Carmen Lucia sentirão na pele o poder da luta dos Kaiowa, que é essencialmente espiritual.

Reafirmou que a Nação Guarani não aceita a tese do marco temporal, aplicada pelos ministros na Segunda Turma do STF, considerando que ela representa o decreto de pena de morte do Povo. Desabafou que estão cansados de tantos sofrimentos e massacres como resultado da negativa de seus direitos originários às terras tradicionais. Elizeu declarou que os Kaiowa estão dispostos a morrer pelos territórios das retomadas e por isso não temem os ataques em série reiniciados pelos latifundiários em diferentes Tekohas. As lideranças do Aty Guasu divulgarão comunicado oficial após o encerramento da assembleia.

Texto de Rodrigo Arajeju, com informações do Mato Grosso do Sul de membros do Aty Guasu. Fotos do acervo da 7G Documenta (www.7gdocumenta.com.br).

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ATY GUASU SE PRONUNCIARÁ SOBRE A CRIMINALIZAÇÃO DE LIDERANÇA TRADICIONAL E AS NOVAS OFENSIVAS CONTRAS RETOMADAS

Membros do Grande Conselho Aty Guasu Kaiowa e Guarani manifestaram preocupação diante do agravamento do quadro de violência institucional e da intensificação de hostilidades nas áreas de retomadas dos territórios tradicionais no Mato Grosso do Sul. Impera o estado de alerta no Tekoha Kurusu Amba, no município de Coronel Sapucaia, em decorrência das investidas de milícias. Também há relatos de ataques nos Tekohas Pyelito Kue, Santiago Kue e Ypo’i.

Na noite da última sexta-feira (15/05), a Polícia Civil de Caarapó realizou operação no Tekoha Takuara e efetuou a prisão do nhanderu Sergio Paulo. Segundo relatos de fotos locais, o delegado Benjamin Lax (foto) comandou a incursão no território do Tekoha Takuara, com quatro viaturas – sem identificação. As lideranças indígenas alegam que não foi apresentado o mandado judicial e denunciam o descumprimento de condicionante de Termo de Ajustamento de Conduta, que determina a comunicação prévia do Ministério Público Federal e da Fundação Nacional do Índio.

As forças policiais indagaram a comunidade sobre o paradeiro do cacique Ladio Veron, que sofreu atentado há um mês, e de outras lideranças da retomada. Na negativa de respostas ao interrogatório, os agentes iniciaram a revista de barracos de lona – habitações improvisadas no território ocupado. Testemunhas afirmam que a casa do Nhanderu Sergio Paulo foi invadida e lá os policiais introduziram entorpecente. A prisão se baseou na acusação pelo suposto porte de maconha. Essa repressão policial já inibiu inclusive o uso do rapé nas comunidades, uma medicina tradicional indígena.

A violência institucional teve por alvo um rezador, que representa a máxima autoridade na organização tradicional do Povo Kaiowa e Guarani. A prisão do nhanderu agrava o processo de criminalização de lideranças da retomada do Tekoha Takuara. Sergio Paulo é filho do nhanderu Adelino Paulo, falecido em novembro de 2014. O ancião chegou ferido na aldeia e morreu diante de sua família. A comunidade desconhece o resultado da perícia da Polícia Civil ou de investigação do suposto crime.

Adelino e Sergio Paulo

Nhanderus Adelino e Sergio Paulo (direita).

O cacique do Tekoha Kurusu Amba, Elizeu Lopes, relatou por telefone que nos últimos dias o território da retomada sofreu novas investidas de milícias. Pistoleiros realizaram disparos de armas de fogo, sempre durante as noites, causando pânico entre crianças e anciões. Os latifundiários da região tensionam a atmosfera de conflito com essa estratégia de terrorismo psicológico, denunciada diversas vezes pelas lideranças indígenas e organizações de apoio. Em outubro de 2014, a 7G Documente realizou registro documental com depoimentos do nhanderu Sergio Paulo e do cacique Elizeu, disponíveis nos vídeos CLAMOR KAIOWA 1 – TEKOHA TAKUARA (https://youtu.be/fMYW4KEHNtQ, a partir de 7:54) e CLAMOR KAIOWA 2 – DESPEJO TEKOHA (https://youtu.be/39ju6d5WYY8).

Segundo membros do Aty Guasu, a Polícia Civil do estado promove a criminalização de lideranças da retomada, simulando o flagrante de crimes, e não investiga as ocorrências de crimes contra a vida e integridade de indígenas. O Aty Guasu Kaiowa e Guarani reunirá seu Grande Conselho nos próximos dias para se pronunciar sobre a prisão arbitrária do nhanderu Sergio Paulo e os novos ataques promovidos por latifundiários contra as comunidades de diferentes retomadas.

Texto e fotos de Rodrigo Arajeju, com informações de membros do Aty Guasu. Fonte da foto do delegado Benjamin Lax: CaarapoNews.